‘O mecanismo’, da Netflix, levanta polêmica sobre parcialidade na ficção

A Netflix recebeu críticas negativas por questões políticas da produção Polêmica.

A Netflix foi inserida dentro de uma queda de braço política com a série O mecanismo. Assinada pelo cineasta José Padilha e estrelada por Selton Mello, a produção conta a história dos bastidores da operação Lava-Jato, que desnudou um grande esquema de corrupção no país, envolvendo grandes nomes do Legislativo e do Executivo nacional.

Uma das razões para esse queda de braço deu-se no momento em que a produção atribuiu uma fala (“estancar a sangria”) ao personagem que representaria o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fora da ficção, as frases foram ditas pelo senador Romero Jucá (MDB-RR) em uma conversa com o ex-senador e ex-presidente da Transpetro (empresa de transporte e logística da Petrobras), Sérgio Machado. O trecho da conversa envolvendo Jucá e Machado foi divulgado em 23 de maio de 2016.

Não demorou muito para começarem as críticas à produção. Nomes ligados à esquerda apontaram descontentamento com a série e ensaiaram um boicote à Netflix. Professor, crítico de cinema e editor do site Cinema em Cena, Pablo Villaça fez severas críticas à produção e ao serviço de streaming. As opiniões de Villaça repercutiram com grande impacto nas redes sociais. No portal em que escreve, ele citou várias razões que o levaram a cancelar o serviço de streaming. Em entrevista ao Correio, ele explica que O mecanismo foi “apenas a gota d’água” para o cancelamento do serviço e que não existia o plano prévio de começar um boicote em massa contra a Netflix.

“Quando eu cheguei a essa gota d’água para cancelar, eu tirei a tela (um print screen, da confirmação do cancelamento), botei no meu Twitter, e o pessoal foi tirando também, e eu fui retuitando e, de repente, quando eu vi ,virou um movimento, mas não foi uma coisa organizada”, destacou Villaça. “Quando a Netflix toma a decisão de fazer um contrato, com um cara como o José Padilha, para fazer uma série sobre a Lava-Jato, eles sabiam exatamente qual ia ser o resultado. Eles estão fazendo uma história antes de a história terminar. E eles estão fazendo isso a poucos meses de uma eleição, que está altamente polarizada, em um país em que existe uma divisão hostil. Isso mostra a irresponsabilidade da Netflix”, completa.

O crítico também ressalta que já acompanhou e elogiou outros trabalhos de Padilha: “Eu considero o José Padilha, como diretor, excelente. Eu estive no festival de Berlim recentemente e acompanhei o filme 7 dias em Entebbe (um dos mais recentes trabalhos de Padilha) e fui um dos poucos que gostaram do filme. E escrevi isso”, lembra.

Visão de especialista

Após ponderar que ainda não viu a produção, a professora Dacia Ibiapina, do Departamento de Audiovisual da Universidade de Brasília, aponta aspectos positivos e negativos sobre a polêmica. “Bem, eu acho que o audiovisual é político, não tem como não ser, por princípio, eu sou a favor da liberdade de expressão, eu acho que existem diversos tipos de conteúdos, e essa diversidade é importante. Agora, eu entendo que o boicote tem o objetivo de chamar a atenção para uma questão válida. E, se tem pessoas se posicionando e chamando a atenção, é porque provavelmente há motivos”, pondera.

Ao ser perguntado se participaria de um projeto polêmico envolvendo a política atual nacional, o cineasta Felipe Gontijo é categórico: “Sim, com certeza. A gente, quando faz um produto de comunicação, está suscetível a isso (respostas por parte do público). Inclusive tem uma produtora de que eu sou parceiro que tinha um projeto que envolvia como pano de fundo toda uma coisa da política do Planalto. A gente não deve fugir de temas, se fugir, está havendo uma censura. É uma coisa difícil, porque não tem como ser isento no que a gente faz, tem de existir a produção”, afirma.

Defesa da série

Em entrevista ao jornal O Globo, José Padilha negou a propagação de notícias falsas. “A série mostra como PT e PMDB montaram um enorme esquema de corrupção de lavagem de dinheiro. Um esquema que lesou os brasileiros, com a participação clara de Lula e Temer, que, durante boa parte do tempo, foram sócios da corrupção sistêmica, lógica estruturante da política no Brasil. E a esquerda quer polemizar o uso do termo ‘estancar a sangria’? Não é preciso ser nenhum Sigmund Freud para concluir o que a esquerda revelou sobre si mesma ao se ater a este ponto”, apontou Padilha. Ainda sobre o boicote, o diretor ironizou a ação de militantes de esquerda como “patética”.

O Correio tentou entrar em contato com Padilha, por meio da produtora da qual o cineasta é sócio — a Zazen —, mas, até o fechamento desta matéria, não recebeu resposta. O jornal também contatou a assessoria da Netflix no Brasil, mas não foi atendido.

A ex-presidente Dilma Rousseff também questionou a série por, supostamente, manipular os fatos em prol de uma ideologia política. “A série O mecanismo, na Netflix, é mentirosa e dissimulada. O diretor inventa fatos. Não reproduz fake news. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas”, aponta o terceiro parágrafo do texto assinado pela equipe da ex-presidente.

O ex-presidente Lula falou sobre a produção. “Nós vamos processar a Netflix, nós não temos que aceitar isso. Eu não vou aceitar (…) Eles produziram uma peça que é mais uma mentira”, afirmou em passagem por Curitiba, segundo o jornal El País.

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