O clima semiárido e a construção agrícola e cultural do Sertão do Pajeú

Clima semiárido e a construção agrícola e cultural do Sertão do Pajeú.

Por João Paulo Ferraz: Eng. Agrônomo e Assessor de Projetos, colunista do Blog do Robério Sá

Como o nome já diz, região semiárida é aquela que apresenta um clima intermediário entre chuvoso e árido. Essas regiões possuem uma precipitação pluviométrica limitada, caracterizada geralmente pela concentração de chuvas num curto espaço de tempo, acompanhado de longos períodos de estiagens anuais; outras vezes, seguidos períodos de estiagens bem longas, atravessando mais de 12 meses secos.

Com uma média de 600 mm de precipitação pluviométrica, o Sertão do Pajeú é caracterizado como uma região de Clima Semiárido, assim como muitas outras regiões do Nordeste e do Norte do Estado de Minas Gerais. Com este regime de chuvas, as culturas encontradas nessa região são aquelas que possuem significativa resistência ao limitado volume de água livre no solo.

O Clima Semiárido é responsável também pela ocorrência do Bioma Caatinga (do Tupi Guarani caah tinga = mata branca). A Caatinga nada mais é que uma savana, com espécies vegetais e animais próprias, isto porque a fauna e a flora, ao longo de milhões de anos, evoluíram e adaptaram-se às condições do clima. Como na África e na Austrália, em regiões de latitudes próximas, as correntes de ar condicionaram uma ordem própria no volume das chuvas e essas, por sua vez, geraram as diversidades do clima, solo, flora, fauna e inclusive as atividades e ações dos povos que nela residiram.

No Semiárido Brasileiro, a chuva ocorre geralmente entre os meses de janeiro e março. Nesse período, os agricultores, em sua maioria de ordem familiar, aproveitam para plantar no sistema de sequeiro que não faz uso de irrigação. As principais culturas encontradas nesse sistema são: o feijão, o milho, a fava, o arroz-vermelho, a melancia, a abóbora e outras espécies agrícolas responsáveis pela formação dos ingredientes da alimentação nordestina. O clima causticante é propício para a criação de diversos animais. Sendo assim, a pecuária do Semiárido é bastante diversificada, podendo se encontrar desde pequenos animais, como aves, caprinos e ovinos, até mesmo bovinos e equinos. Todavia, a quase inexistência de programas de capacitações para estocagem de alimentos para o período seco, aliada à falta de água nos açudes, tem sido a principal causa da redução dos rebanhos sertanejos. Uma consequência negativa deste fenômeno é a extinção de feiras de compra e venda de animais nas cidades interioranas, um prejuízo para a economia local.

A região semiárida nordestina geralmente está subdividida em territórios caracterizados pela cultura: saberes, sabores e tradições, administrada pelos governos estaduais que são responsáveis pelo cumprimento das políticas públicas federais, de desenvolvimento local. O Sertão do Pajeú é assim identificado pelo nome do principal rio que corta toda a sua extensão. Vale lembrar que no Sertão do Pajeú, assim como noutros sertões em sua parte alta encontra-se um microclima diferenciado, com temperaturas amenas e chuvas em maior volume. A estas localidades dá-se o nome de brejo. O Brejo do Pajeú contempla os municípios de Santa Cruz da Baixa Verde e Triunfo. Nessa região, o cultivo e a cultura própria fazem dela um oásis em meio à planície por onde o Rio Pajeú faz caminho até o seu destino final, o Velho Chico.

No Brejo do Pajeú, a cultura da cana-de-açúcar e o frio próprio de regiões montanhosas concederam aos já citados municípios um caráter turístico, que vem nos últimos anos condicionando um novo eixo econômico que preza sobretudo pela correta “exploração” dos abundantes recursos naturais. Nesse sentido, é importante citar as cachoeiras, os poços, os mirantes… Triunfo possui o ponto mais alto do estado de Pernambuco em relação ao nível do mar, com 1260m de altitude. As festas tradicionais e os costumes brejeiros fazem da região um excelente destino para turistas que gostam do natural e inusitado jeito de viver do povo sertanejo dessa região de montanha.

Sem dúvida, as riquezas do pedacinho do Semiárido contido no Sertão do Pajeú o imortaliza na história do país. Tabira, Carnaíba, Quixaba, São José do Egito e outras são berços de natos poetas e poetisas que levaram o nome de suas cidades para o Brasil e o mundo. Também no Sertão do Pajeú a histórica cidade de Flores, que outrora dominou todo o Sertão Pernambucano, ainda hoje esbanja história e conhecimento sobre as conquistas de uma terra que foi puramente agrícola até meados do século passado. Desse modo, o clima regional que pode ser visto como um obstáculo ao desenvolvimento nunca foi empecilho para a construção de uma cultura que, embora limitada pelos fatores atmosféricos, não cessou na resiliência, nem se estagnou no comodismo. Logo, se do Pajeú o Brejo é Oasis, do Semiárido o Pajeú é modelo de superação e conquistas agrícolas, econômicas, culturais e sociais.