Nem governo e nem oposição têm chapas fechadas para as eleições em Pernambuco

Em fevereiro de 2014, Paulo e Eduardo já tinham dado a largada na disputa para o Palácio.

É praticamente maio e as chapas majoritárias que disputam Governo e Senado por Pernambuco ainda não estão postas. Os candidatos conhecidos são, apenas, o governador Paulo Câmara (PSB), que disputa a reeleição, e a advogada Daniella Portela (PSOL). Em 2014, a corrida já estava definida em fevereiro, no Carnaval, com Paulo Câmara caminhando ao lado do ex-governador Eduardo Campos e Armando Monteiro Neto (PTB) colado no ex-presidente Lula (PT) e na presidente Dilma Rousseff. Já em 2018, “situação” e “oposição” estão na retaguarda, esperando que o adversário dê primeiro a lista de nomes. Na visão dos analistas, a última disputa transcorreu com mais espontaneidade devido à maior estabilidade política no cenário nacional, onde se deu a manutenção da polarização recorrente entre PT e PSDB. Agora, quase todas as variáveis estão em aberto.

Uma coisa é certa: a corrida presidencial com 15 candidatos contribui fortemente para a indefinição nos estados. Quando a polarização ameaça sair de cena, todos enxergam uma chance de surpreender nas urnas. O provável afastamento do ex-presidente Lula (PT), que tem forte aceitação em Pernambuco, é um dos fatores preponderantes para a campanha desse ano: a disputa da herança lulista. Por outro lado, a possibilidade de diversos partidos terem presidenciável dificulta o entendimento no campo regional.

Enquanto o PSB busca ampliar o tempo de televisão para garantir a reeleição de Paulo Câmara, o PT pensa em oferecer um palanque forte para seu presidenciável no Estado, além de eleger nomes para o Legislativo federal e estadual. Só na Assembleia Legislativa, a base do governo conta com PSB, PP, MDB, SD, PSC, PR, PMN, PSD e PSDC. Esse grupo permite a Paulo um tempo de mídia semelhante ao que a Frente Popular tem praticado nas últimas eleições. O risco é justamente o MDB mudar de lado, no meio do caminho, aumentando a margem da oposição.

Briga jurídica
A briga jurídica entre o senador Fernando Bezerra Coelho e o vice-governador Raul Henry pelo comando do MDB mexeu com as expectativas da corrida eleitoral. Na hora da campanha, quem tiver o controle do partido, sairá em vantagem no tempo de televisão e rádio, contando também com o recurso do fundo eleitoral. Acontece que FBC esperava levar o partido para a oposição antes do fechamento da janela eleitoral, na tentativa de trazer aliados e se viabilizar como candidato a governador. Isso não aconteceu e deixou todas as legendas da frente “Pernambuco Quer Mudar” em pé de igualdade.

Por estarem à frente da máquina estadual, partidos como PP, PSC e Solidariedade buscaram formar chapas proporcionais competitivas, na tentativa de aumentar seus pesos na disputa. Essas agremiações esperam ter um espaço na chapa majoritária, mas o governador Paulo Câmara tem dado sinais de que deve contemplar o ex-governador Jarbas Vasconcelos (MDB) e o ex-prefeito do Recife, João Paulo (PCdoB), explorando a aceitação maior na região metropolitana. O nome do ex-prefeito de Caruaru, Zé Queiroz (PDT), também é considerado e seria uma forma de contemplar a maior cidade do agreste, como é o costume na formação dos palanques.

No passado, Armando Monteiro contou com Lula. Hoje, oposição divide-se entre ele e Mendonça Filho – Foto: Divulgação.

Oposição
Na oposição, o senador Armando Monteiro e o deputado federal Mendonça Filho (DEM) estão entre os mais cotados para ocuparem a candidatura ao governo. Porém, o grupo tem tido dificuldade em alcançar um consenso, uma vez que os partidos agrupados ali têm projetos de poder diferentes, o que torna a coligação inédita. “É muito cacique para pouco índio, como se diz no ditado popular”, interpreta o cientista político Alexsandro Ribeiro.

Enquanto Armando se projetou no Estado com o apoio de Lula, Mendonça Filho já era ex-governador e cresceu como ministro do governo Temer. O problema é que o PSB já tenta colar, nesse conjunto, a pecha de “palanque de Temer”, aproveitando a alta reprovação do atual presidente para atacar os adversários.

O cientista político Elton Gomes explica que normalmente é mais fácil ser oposição por conta do discurso, da facilidade em apontar defeitos, mas não tem sido assim em Pernambuco. “Quanto mais a oposição demora para anunciar os nomes, mais o governador se fortalece. Ele está com a máquina, tenderá a ter o maior tempo de televisão e uma maior coalizão de partidos. Sem doações de empresas, uma maior quantidade de partidos garante mais recursos do fundo eleitoral. Nesse sentido, o governador se fortalece”, explica.

Armando Monteiro teria o recall necessário para ser o candidato natural nessa eleição, explica Alexsandro Ribeiro, mas a nomeação dos parlamentares pernambucanos para os ministérios de Temer fez com que esses atores políticos buscassem voos maiores. “A história mostra isso: quem chega a um ‘patamar’ considerável no cenário nacional se fortalece no local”, pontua. “O fator negativo que também influencia as escolhas é o impacto da Operação Lava Jato, que tem alcançado quase todos os concorrentes”, verifica.

Na prática, Armando é um candidato que, sozinho, dispõe de uma estrutura formada por PTB, PRB, Podemos e Avante, com cinco deputados federais e sete deputados estaduais aliados. Isoladamente, na briga por espaço, Mendonça Filho e Bruno Araújo (PSDB) passaram respectivamente pelos ministérios da Educação e das Cidades, possuem influência no Congresso nacional, estruturas partidárias fortalecidas após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, apesar da reprovação de Temer. Nesse caso, a maior espera da oposição se deve à indefinição no Partido dos Trabalhadores, que será determinante na hora de propor uma ou duas candidaturas ao governo.

Luciano Duque e Marília Arraes. Foto: Reprodução.

Marília Arraes
A vereadora do Recife Marília Arraes luta para se colocar como a candidata ao Governo do Estado pelo PT, tendo a seu favor o sobrenome, o engajamento nos movimentos sociais e a boa pontuação em pesquisas menores de intenção de voto – o que reforça a necessidade de definição para que pesquisas de mais peso, como Datafolha e Ibope, aconteçam.

Nos bastidores, a candidatura de Marília é mal vista pelo Palácio, porque retiraria a propriedade do PSB de recorrer às figuras de Miguel Arraes e do ex-presidente Lula, que foi aliado de Eduardo Campos num tempo próspero para os socialistas. O maior interesse da oposição, tanto de Marília, quanto da frente Pernambuco Quer Mudar, é levar a disputa para o segundo turno, o que aumentaria o tempo de exposição do governador.

“Se a oposição quiser vencer essa disputa, precisa fazer os ataques às deficiências do governo, mas se colocar como uma alternativa real”, explica o cientista político Leon Victor de Queiroz (UFCG). “Os debates serão importantes para fazer isso, mas o formato normalmente é muito superficial, com perguntas e respostas curtas. Se os oposicionistas não conseguirem se distinguir um do outro, a população não vai entender”, avalia. (Blog da Folha)

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